Scorecard de Confiabilidade de Crédito — Guia do Analista
Objeto. Este guia explica, com exemplos, como o Ciano Data Lake avalia quão confiável é uma instituição financeira para honrar seus créditos (CDB, LF, LCI/LCA, debêntures, etc.), para uso por analistas e como material auditável a um regulador.
Princípio. O scorecard é interpretável e decomponível — percentis dentro de grupos de pares + caps absolutos ancorados em limites regulatórios. Não é modelo caixa-preta, não usa machine learning, e cada número publicado pode ser destrinchado nas métricas que o compõem.
1. O que o score mede (e o que não mede)
| Mede | Não mede |
|---|---|
| Risco de crédito do emissor (solidez patrimonial, qualidade de carteira, resultado, liquidez, tamanho) | Risco do instrumento específico (senioridade, vencimento, garantias, cláusulas) |
| Comparação relativa entre pares (família × porte) | Preço/mercado (spreads, CDS) |
| Tendência ao longo do tempo ("o vídeo") | Governança, gestão, fatores qualitativos |
Para fundos institucionais o FGC não incide (o FGC exclui créditos de instituições financeiras e de fundos, e instrumentos subordinados). Portanto o score trata de risco de crédito puro do emissor — não há rede de proteção. Características do título (LF subordinada vs. CDB sênior, vencimento, garantias) entram como overlay estrutural fora deste score.
2. Fonte dos dados (lineage)
BACEN IF.DATA (API Olinda)
└─ bronze (texto fiel, sem tipagem)
└─ silver ifdata_valores / ifdata_cadastro (saldo tipado)
└─ gold if_financeiros_periodo / if_indicadores_periodo / if_cobertura_periodo
└─ gold if_confiabilidade_periodo ← este scorecard
+ if_observacoes_periodo (flags)
- Grao:
(instituicao_id, periodo)— uma linha por instituição por trimestre (95.978 pares, 3.197 códigos, 2015-03 … 2026-03). - Unidades: valores monetários em reais; índices de capital são frações
(0,15 = 15%).
perda_esperadaé contra-ativo (negativa). - NULL = ausente, nunca zero. Toda ausência é explicada em
if_observacoes_periodo.
3. As métricas
| Métrica | O que é | Unidade | Melhor quando |
|---|---|---|---|
indice_basileia |
PR ÷ RWA | fração | maior |
indice_capital_principal (CET1) |
Capital Principal ÷ RWA | fração | maior |
razao_alavancagem |
Tier 1 ÷ exposição | fração | maior |
indice_imobilizacao |
Ativo Permanente ÷ PR | fração | menor |
cet1_gap |
Basileia − CET1 | fração | menor (menos capital não-núcleo) |
probl_pct |
ativos problemáticos ÷ carteira | fração | menor |
inad_pct |
inadimplência ÷ carteira | fração | menor |
prov_pct |
|provisão| ÷ crédito bruto | fração | menor |
roa, roe, pl_sobre_ativo |
rentabilidade / capitalização | fração | maior |
eficiencia |
despesas ÷ receitas de intermediação | fração | menor |
d_ativo_2a, d_cet1_2a … |
tendências ("o vídeo") | % ou pp | ver §5 |
bank_zscore |
(ROA + PL/Ativo) ÷ σ(ROA) | — | maior |
Origem por escopo (importante): capital (Basileia, CET1, RWA, Alavancagem,
Imobilização) é publicado apenas no escopo prudencial (conglomerado); a
qualidade de carteira migrou de financeiro (AA..H, até 2024) para prudencial
(C1–C5, desde 2025). Quando a instituição não tem o valor próprio, o score usa o
bloco _grupo (conglomerado prudencial) e registra a origem
(fonte_capital / fonte_qualidade). É isso que permite pontuar o emissor.
4. O modelo de score
Pilares e pesos:
| Pilar | Peso | Métricas |
|---|---|---|
| Capital e solvência | 35% | Basileia, CET1, Alavancagem, Imobilização, cet1_gap |
| Qualidade de ativos | 30% | probl_pct, inad_pct, prov_pct, índice C1–C5 |
| Rentabilidade | 15% | roa, roe, eficiencia |
| Crescimento (vídeo) | 10% | d_ativo_2a, d_cet1_2a |
| Tamanho | 10% | log(ativo_total) |
Cálculo:
pillar_score = Σ(peso_métrica × q_métrica) / Σ(peso_métrica) [sobre métricas disponíveis]
score = Σ(peso_pilar × peso_métrica × q) / Σ(peso_pilar × peso_métrica) ∈ [0,100]
cobertura = massa de pesos das métricas disponíveis (0..1)
q_métrica = percentil dentro do grupo de pares (0–100, 100 = melhor),
invertido para métricas de menor-melhor.
Faixas: A ≥ 80 · B ≥ 65 · C ≥ 50 · D ≥ 35 · E < 35.
Caps absolutos (inegociáveis, aplicados depois do score):
| Condição | Faixa teto | Base normativa |
|---|---|---|
| PL < 0 | E | capital exaurido |
| Basileia < 8% | E | Res. CMN 4.958/2021 |
| Basileia < 10,5% | C | 8% + ACP conservação 2,5% |
| CET1 < 4,5% | E | Res. CMN 4.958/2021 |
| CET1 < 7% | C | 4,5% + ACP 2,5% |
| Alavancagem < 3% | E | Res. CMN 4.615/2017 |
| Imobilização > 50% do PR | C | Res. CMN 4.957/2021 |
faixa_final = pior(faixa calculada, caps).
Se a cobertura < 40%, o score e a faixa são NULL + flag
SCORE_INDISPONIVEL — nunca se rotula como "pior faixa" quem simplesmente não
tem dado.
5. "Vídeo", não "foto"
d_* = delta = variação (_2a = 2 anos, _1a = 1 ano). É o que captura
deterioração antes que o nível a mostre.
Exemplo — Banco Master (2025, RAET)
| Código | Entidade | 2024-06 | 2024-09 | 2024-12 | 2025-03 |
|---|---|---|---|---|---|
33923798 |
BANCO MASTER S/A (emissor) | D 44,6 | D 36,8 | D 39,4 | E 23,5 |
C0080367 |
MASTER – PRUDENCIAL | D 44,8 | D 37,6 | D 39,5 | E 26,9 |
- A foto nunca reprovava: Basileia ~11% e lucro positivo até o fim.
- O vídeo acusava:
d_ativo_2ade 200–360% (crescimento explosivo) e erosão de CET1 → flagsCRESCIMENTO_ALTO+CAPITAL_EROSAOtrimestre a trimestre. - Posição relativa em 2024-12: score 39,4 → apenas 214 de 1.290 instituições pontuavam abaixo (~17º percentil). O scorecard rebaixa antes do colapso.
Exemplo — como ler uma linha (2026-03)
| Instituição | sr | Basileia | CET1 | Imob | Probl% | Inad% | Score | Faixa |
|---|---|---|---|---|---|---|---|---|
| Sicoob | S2 | 17,97 | 16,28 | 10,9 | 2,94 | 0,39 | 66,5 | B |
| Itaú | S1 | 14,77 | 11,97 | 20,7 | 3,73 | 2,25 | 58,4 | C |
| BB | S1 | 14,23 | 11,59 | 21,7 | 8,83 | 5,39 | 40,0 | D |
| BV | S2 | 15,01 | 11,16 | 5,7 | 10,53 | 8,21 | 38,0 | D |
| BMG | S3 | 12,10 | 8,61 | 32,2 | 5,89 | 3,60 | 32,1 | E |
Ler assim: BB tem capital bom mas qualidade de carteira fraca (probl 8,83%, inad 5,39%) → puxa o score para D. BV é o pior em qualidade. BMG tem CET1 baixo (8,61%) e imobilização alta (32,2%) → E.
6. Dados ausentes — nunca confundir com "ruim"
A ausência é majoritariamente estrutural, não erro:
| Família | Escopo que publica | Período |
|---|---|---|
| Ativo, PL, Lucro, Depósitos, Crédito | todos | todo |
| Basileia, CET1, RWA, Alavancagem, Imobilização | só prudencial | todo |
| Carteira total, problemáticos, inadimplência, C1–C5 | só prudencial | 2025-03+ |
| AA..H (níveis de risco) | só financeiro | até 2024-12 |
- Quando falta o valor próprio, usa-se o bloco
_grupo(conglomerado) e registra-sefonte_capital/fonte_qualidade. - Cobertura insuficiente →
score=NULL+ flag, nunca uma faixa falsa. - Flags como
QUALIDADE_SUSPEITA(ex.: cooperativas com NPL ~0%) marcam para dupla checagem humana sem contaminar o número.
7. Âncoras regulatórias (para o regulador)
| Limite | Valor | Norma |
|---|---|---|
| PR (Basileia) mínimo | 8% × RWA | Res. CMN 4.958/2021 (antes 4.193/2013) |
| Nível I mínimo | 6% × RWA | Res. CMN 4.958/2021 |
| Capital Principal (CET1) mínimo | 4,5% × RWA | Res. CMN 4.958/2021 |
| Adicional de Conservação | 2,5% | Res. CMN 4.958/2021, art. 8º |
| Cooperativas singulares não filiadas | +4 pp | Res. CMN 4.958/2021, art. 7º |
| Imobilização (Ativo Permanente) | máx 50% do PR | Res. CMN 4.957/2021 |
| Razão de Alavancagem | mín 3% | Res. CMN 4.615/2017 (→ 5.223/2025) |
| Ativo problemático | definição | Res. BCB 352/2023, art. 3 |
| Carteiras C1–C5 | definição | Res. BCB 352/2023 + IN BCB 433 |
8. Suposições, limitações, sensibilidade, validação
Suposições: (1) o conglomerado prudencial é o melhor proxy de solvência para um credor; (2) percentis por pares capturam qualidade relativa comparável.
Limitações (explícitas): sem dados de mercado; sem escada de vencimento
(LCR/NSFR fora do IF.DATA); sem características do instrumento; C1–C5 sem
ordenação oficial (índice provisório); quebra contábil 2024→2025
(cosif_legacy→cosif_4966); cooperativas têm razões estruturalmente
distintas; ~48% das instituições não têm massa de métricas para score.
Sensibilidade: testar variação de ±20% nos pesos, ±0,5 pp nos caps, janelas
4/8/12 trimestres, min_grupo 10/20/40, percentis vs. z-scores. A ordenação
relativa deve ser estável.
Validação: backtest contra eventos reais (Master/RAET, liquidações do BCB, falências do FGC); calibração de faixas → PD implícita pelos estudos de default das agências (S&P Global Corporate Default Study, Moody's Annual Default Study, Fitch); discriminação (Gini/AUC); revisão independente anual.
Cadência: mensal (migração de score/faixa) · trimestral (pares, caps, cobertura) · anual (revisão independente + recalibração + atualização normativa).
9. Governança
Todo peso, limiar e janela está em
ciano_lake/gold/instituicoes/scoring.yml; o método completo está em
docs/methodology/if-confiabilidade-scoring.md. Nada é forçado: métrica que não
fecha fica NULL com evidência. Um score publicado pode sempre ser recomputado e
auditado a partir das métricas de entrada.
Referências metodológicas: CAMELS/FFIEC · Moody's BCA/BSI · S&P BICRA · Fitch Bank Scorecard · Basel III · Roy (1952) · Hannan & Hanweck (1988) · Laeven & Levine (2009) · Čihák & Schaeck (2010) · World Bank GFDD (Bank Z-score).